“Mas ele ainda é tão pequenino… tem tempo para aprender.”
Esta é uma frase que ouvimos muitas vezes quando falamos de autonomia e limites no Jardim de Infância. E é verdade: a criança tem tempo. Mas é precisamente por isso que estas competências não se constroem à pressa, nem apenas quando chega o 1.º Ciclo.
Na Lua Crescente, a autonomia e os limites desenvolvem-se nas pequenas situações do dia: quando a criança tenta vestir o casaco, quando aprende a esperar, quando pede ajuda, quando aceita que há momentos para brincar e momentos para parar.
Nesta primeira parte, mostramos-lhe a forma como acompanhamos estas conquistas no dia a dia. Na segunda parte, vamos falar de outra aprendizagem essencial: viver com os outros.
Como é que a Lua Crescente trabalha a autonomia e os limites no Jardim de Infância?
Na Lua Crescente, usamos muito a ideia de andaime pedagógico, associada a Jerome Bruner e à Zona de Desenvolvimento Proximal de Vygotsky. Na prática, significa isto: o adulto apoia a criança enquanto ela precisa desse apoio e vai retirando-o à medida que ela ganha segurança.”
Este apoio não é igual para todas as crianças, nem é sempre igual ao longo do ano. Há dias em que a criança avança mais. Há outros em que precisa de voltar a sentir o adulto por perto. E isso também faz parte do desenvolvimento.
Na nossa experiência, ao longo dos anos, já tivemos situações em que foi preciso descer um andaime para depois voltar a subir.
Acontece, por exemplo, quando uma criança que já tinha conseguido completar um puzzle ou uma construção começa a desistir logo que encontra uma dificuldade.
Em vez de fazermos por ela, descemos o andaime: ajudamos a olhar para as peças, fazemos uma pergunta orientadora, começamos juntos uma pequena parte e deixamos que continue quando se volta a sentir capaz.
“Às vezes, o mais importante não é resolver pela criança. É ficar perto o suficiente para ela perceber que pode tentar outra vez.”
Joana Conceição, Educadora de Jardim de Infância
É desta forma que trabalhamos: observamos, ajustamos e acompanhamos. Não forçamos conquistas. Criamos condições para que aconteçam com naturalidade e para que exista uma evolução real no desenvolvimento infantil.
Dar tempo para tentar, sem deixar a criança sozinha
Um dos princípios que valorizamos no Jardim de Infância é dar tempo à criança para participar nas rotinas, sem fazermos tudo por ela só porque é mais rápido.
No dia a dia, ajudamos as crianças a desenvolver a capacidade de terminar o que começaram, pedir ajuda quando precisam ou tentar novamente perante uma dificuldade.
São gestos simples, mas é através deles que a criança começa a perceber que faz parte da rotina, que pode contribuir e que o adulto está ali para apoiar.
Muito antes dos cadernos e dos trabalhos de casa, há estas pequenas bases a crescer todos os dias.
Na prática, isto acontece em situações simples: arrumar antes de mudar de atividade, esperar pelo momento certo para falar, usar os materiais com cuidado ou compreender que há momentos para brincar, escutar, participar e descansar.
Quando o adulto diz “agora não podemos correr aqui” ou “vamos esperar pelo momento certo”, está a ajudar a criança a perceber o contexto, a lidar com a frustração e a encontrar outras formas de agir.
Estas aprendizagens precisam de tempo, repetição e coerência. Aos poucos, os limites deixam de ser apenas regras exteriores e começam a tornar-se referências internas para a criança.
O que muda ao longo do ano letivo no Jardim de Infância
Há um crescimento muito bonito que acontece ao longo do Jardim de Infância: a criança começa a sentir-se mais capaz, mais organizada e mais preparada para dar o passo seguinte.
Na nossa experiência, esta evolução torna-se muito visível ao longo do ano letivo. No início, é comum ouvirmos alguns pais dizerem: “ele ainda é tão distraído, não sei como vai ser para o ano no 1.º Ciclo”.
Mas, mês após mês, vemos a criança crescer em pequenos gestos:
Cuida melhor dos seus materiais.
Espera com mais tranquilidade pela sua vez.
Termina atividades com mais persistência.
Pede ajuda de forma mais clara e lida melhor com pequenas frustrações.
“Muitas vezes, os pais só se apercebem desta evolução quando olham para trás. No início do ano parecia tudo muito difícil; no final, aquela criança já está muito mais segura para dar o passo seguinte.”
Joana Conceição, Educadora de Jardim de Infância
Por isso, brincar, experimentar, repetir, errar e voltar a tentar fazem parte do crescimento e estão presentes todos os dias no nosso Jardim de Infância.
No Jardim de Infância, o desenvolvimento infantil acontece nas pequenas conquistas do dia a dia
O desenvolvimento infantil não acontece da mesma forma em todas as crianças. Algumas precisam de mais apoio para iniciar uma tarefa.
Outras precisam de ajuda para terminar. Outras ainda precisam de mais tempo para aceitar a espera, a frustração ou a mudança de atividade.
É por isso que, para nós, observar é tão importante. Antes de pedir mais autonomia, precisamos de perceber onde está cada criança. Antes de retirar apoio, precisamos de garantir que ela já tem segurança para avançar.
E, quando é necessário, voltamos a aproximar-nos para que possa tentar de novo.